sábado, 11 de fevereiro de 2012

E lá se foram 10 anos

Aí estão: Maria Helena e mamãe
Às vezes parece que foi ontem.

À vezes parece que nem foi.

Mas já se passaram 10 anos da morte do meu pai, desde aquele terrivelmente triste dia 10 de fevereiro de 2002.

Chegava ao fim o sofrimento que uma doença chamada anemia sideroblástica que nos últimos dois anos consumiu meu pai.

A doença se instalou e foi consumindo o seu corpo aos poucos, traiçoeiramente. Nós, os filhos e mamãe, sabíamos que não havia cura. Aquele desenlace aconteceria, mais dia menos dia. Mas nunca nos preparamos para aquele dia.

E quem se prepara?

Estou na igreja, o padre celebra a missa dos dez anos, mas meu pensamento voa.

Vejo ao meu lado mamãe, mulher batalhadora, sempre comunicativa, alegre, sorridente – hoje quase uma criança levada a que foi por esse terrível mal chamado Alzheimer, o alemão que aponta o caminho de ida, só de ida.

Meu pai tinha 26 anos e ela 15 quando se casaram em 1940 na pequena aldeia de Ribeirão das Neves que vivia em torno da Penitenciária onde meu pai trabalhava.

Aos 25 anos de idade, ela já tinha cinco filhos e mantinha o corpinho jovial que causava inveja a muitas moçoilas.

Viajamos e fomos morar onde meu pai conseguia emprego até nos estabelecermos no Parque Riachuelo, na Zona Norte de Belo Horizonte.

Ali, ser Marinho era mais do que um sobrenome: era um adjetivo que impunha respeito.

Fomos criados como bons católicos, tementes a Deus, respeitando aos mais velhos a que chamávamos de senhor ou senhora.

Era um tempo em que visitas não avisavam que chegariam – simplesmente chegavam.

Eram recebidas na sala e nós, crianças, ficávamos em nosso quarto ou no terreiro ou mesmo na calma e pacífica rua com nossas brincadeiras: os meninos brincando de pegador, as meninas de roda. Ou todos pulávamos corda.

Só não íamos à sala porque lá a conversa era de gente grande.

Meu pai se foi e alguns anos depois a memória de minha mãe começou a fraquejar. Muitos de nós, irmãos, demoramos a perceber o tamanho do mal que se aproximava. Alguns até duvidaram. Menos a Maria Helena, a irmã que vem logo abaixo de mim.

Somos oito irmãos. A fila começou com o Márcio; eu sou o segundo. Depois, veio a Maria Helena. Na sequência, a Marina, a Marta, o Marco Antônio, a Mary e a Mara.

Foi ela, a Maria Helena, a primeira a perceber os problemas.

E é ela, a Maria Helena, o anjo que Deus colocou no mundo para cuidar de mamãe. Santa paciência, divina competência.

Os outros ajudam. Alguns mais, outros menos, outros nada. Como é o meu caso, por exemplo, que moro longe e pouco posso fazer. Sei que minha presença alegra mamãe e, por isso, sempre que posso saio de São Paulo e vou até Belo Horizonte.

Como agora, nos 10 anos da morte de papai.

Estou na Igreja, vejo os irmãos, olho para mamãe, os sobrinhos, os cunhados, cunhadas quase não ouço o padre.

Mamãe ainda reconhece a todos nós. Sabe que a missa é para papai de quem ela não se esquece.

Mas seu rosto já não traz mais aquele sorriso fácil e contagiante de antes, levado que foi pelo maldito alemão.

Ela quer um sorvete, depois quer outro como uma criança. Às vezes almoça e minutos depois se esqueceu do almoço e quer almoçar outra vez.

Não sei até quando ela vai nos reconhecer. O caminho é só de ida, como aconteceu com papai.

São dez anos, parece que foi ontem.

Que falta faz Paulo Marinho com seu rosto grave, seus casos engraçados, seus exageros incríveis. Seu amor aos filhos nunca escancarado como eu acredito que ele gostaria que tivesse sido. Mas o seu jeito reservado, a rígida educação que recebeu não permitia manifestações exageradas.

Era assim naquele tempo.

E dizem que o tempo é o remédio de todos os males.

Mas, de quanto tempo o tempo precisa?

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O brega é belo

Lá se foi Wando.

Lá se foi um romântico.

Lá se foi um brega.

Segundo o dicionário Aulete, brega é aquela pessoa excessivamente romântica; é aquilo que não refinado; que não é chique ou que tem não é estiloso; que apela para o gosto popular; é uma música com dramaticidade exagerada, geralmente feita para camadas populares.

Mas o brega é belo, o brega é ótimo.

Segundo a descrição do Aulete, Roberto Carlos é brega; Nélson Gonçalves também; Ray connif então, nem se pode falar.

O que não for brega hoje, certamente será amanhã.

O tempo é brega.

Há poucos dias, ouvia Raul Seixas no meu carro, quando meu netinho, de oito anos, afirmou do alto de sua sabedoria: “Vô, que música mais brega!”

Não há escapatória.

Eu serei brega – se é que já não sou. Você também.

Lembro-me que ali pela metade dos anos 70, eu e a Primeira Dama desse blog, viajamos para a Bahia, em mais uma das muitas luas de mel, e deixamos nossa filhinha de três anos na companhia da avó dela, minha sogra (que Deus a tenha) em Belo Horizonte.

Naquela época, as ligações telefônicas interurbanas eram caras e difíceis.

Então, combinamos que ligaríamos duas vezes por semana, no mesmo horário, para ter notícias da nossa filhinha e para ouvir a voz dela.

A sogra dava um relatório rápido: tá tudo bem, ela não chorou, fiquem tranqüilos.

E passava o telefone para a filhinha, a Verênia, que falava alguma coisinha e começava a cantar a música que ele gostava: Moca, do Wando.

Dou outro lado, eu e a Primeira Dama colávamos o ouvido no fone e deixávamos as lágrimas correrem ouvindo aquela vozinha tão gentil, tão carinhosa, cantando aquela música tão desavergonhada.

Ela só sabia estes versos:

Eu quero me enrolar

Nos teus cabelos,

Abraçar teu corpo inteiro,

Morrer de amor,

De amor me perder.

Era o bastante para nos emocionar, nos levar às lágrimas e marcar para nunca mais esquecer.

Lá se foi Wando.

Que fez de suas músicas sublime erotismo, o picante suave, a doce sacanagem.

Se Você gosta, clique no linque abaixo e curta o som:

http://www.youtube.com/playlist?list=PL3860AE21F99B877B