![]() |
| Aí estão: Maria Helena e mamãe |
À vezes parece que nem foi.
Mas já se passaram 10 anos da morte do meu pai, desde aquele terrivelmente triste dia 10 de fevereiro de 2002.
Chegava ao fim o sofrimento que uma doença chamada anemia sideroblástica que nos últimos dois anos consumiu meu pai.
A doença se instalou e foi consumindo o seu corpo aos poucos, traiçoeiramente. Nós, os filhos e mamãe, sabíamos que não havia cura. Aquele desenlace aconteceria, mais dia menos dia. Mas nunca nos preparamos para aquele dia.
E quem se prepara?
Estou na igreja, o padre celebra a missa dos dez anos, mas meu pensamento voa.
Vejo ao meu lado mamãe, mulher batalhadora, sempre comunicativa, alegre, sorridente – hoje quase uma criança levada a que foi por esse terrível mal chamado Alzheimer, o alemão que aponta o caminho de ida, só de ida.
Meu pai tinha 26 anos e ela 15 quando se casaram em 1940 na pequena aldeia de Ribeirão das Neves que vivia em torno da Penitenciária onde meu pai trabalhava.
Aos 25 anos de idade, ela já tinha cinco filhos e mantinha o corpinho jovial que causava inveja a muitas moçoilas.
Viajamos e fomos morar onde meu pai conseguia emprego até nos estabelecermos no Parque Riachuelo, na Zona Norte de Belo Horizonte.
Ali, ser Marinho era mais do que um sobrenome: era um adjetivo que impunha respeito.
Fomos criados como bons católicos, tementes a Deus, respeitando aos mais velhos a que chamávamos de senhor ou senhora.
Era um tempo em que visitas não avisavam que chegariam – simplesmente chegavam.
Eram recebidas na sala e nós, crianças, ficávamos em nosso quarto ou no terreiro ou mesmo na calma e pacífica rua com nossas brincadeiras: os meninos brincando de pegador, as meninas de roda. Ou todos pulávamos corda.
Só não íamos à sala porque lá a conversa era de gente grande.
Meu pai se foi e alguns anos depois a memória de minha mãe começou a fraquejar. Muitos de nós, irmãos, demoramos a perceber o tamanho do mal que se aproximava. Alguns até duvidaram. Menos a Maria Helena, a irmã que vem logo abaixo de mim.
Somos oito irmãos. A fila começou com o Márcio; eu sou o segundo. Depois, veio a Maria Helena. Na sequência, a Marina, a Marta, o Marco Antônio, a Mary e a Mara.
Foi ela, a Maria Helena, a primeira a perceber os problemas.
E é ela, a Maria Helena, o anjo que Deus colocou no mundo para cuidar de mamãe. Santa paciência, divina competência.
Os outros ajudam. Alguns mais, outros menos, outros nada. Como é o meu caso, por exemplo, que moro longe e pouco posso fazer. Sei que minha presença alegra mamãe e, por isso, sempre que posso saio de São Paulo e vou até Belo Horizonte.
Como agora, nos 10 anos da morte de papai.
Estou na Igreja, vejo os irmãos, olho para mamãe, os sobrinhos, os cunhados, cunhadas quase não ouço o padre.
Mamãe ainda reconhece a todos nós. Sabe que a missa é para papai de quem ela não se esquece.
Mas seu rosto já não traz mais aquele sorriso fácil e contagiante de antes, levado que foi pelo maldito alemão.
Ela quer um sorvete, depois quer outro como uma criança. Às vezes almoça e minutos depois se esqueceu do almoço e quer almoçar outra vez.
Não sei até quando ela vai nos reconhecer. O caminho é só de ida, como aconteceu com papai.
São dez anos, parece que foi ontem.
Que falta faz Paulo Marinho com seu rosto grave, seus casos engraçados, seus exageros incríveis. Seu amor aos filhos nunca escancarado como eu acredito que ele gostaria que tivesse sido. Mas o seu jeito reservado, a rígida educação que recebeu não permitia manifestações exageradas.
Era assim naquele tempo.
E dizem que o tempo é o remédio de todos os males.
Mas, de quanto tempo o tempo precisa?

Realmente o vovó Paulo faz muita falta ... mas por muitas vezes o vejo presente nos almoços em família que as vezez fazemos lá no apartamento do meu Pai..... são tantos casos que o vovô parece estar entre nós e ESTÁ!
ResponderExcluirSempre estará!
Marinho,
ResponderExcluiresse seu belo texto sobre os dez anos da morte do seu pai me tocou de uma maneira que não sei como comentar.
Solidário na vida,
Toinho Portela
MMarinho.
ResponderExcluirEssa é a vida de cada um. Os meus pais já se foram. Fico sempre impressionado quando alguem emprega "papai" e "mamãe", pois essas duas palavras dizem tudo.Eu nunca fui capaz disso ao me dirigir a terceiros; para mim era "meu pai" e "minha mãe".E isso é muito pouco! Meu pai faleceu durante seus cincoenta e sete anos, apenas, e ou só o fui compreender, completamente, quando atingi essa idade!
Quanto tempo eu perdi !
Moura.
Amigo Marinho:
ResponderExcluirSua mensagem me emocionou.
Parabéns por esse talento de relatar um fato de forma nos leva a meditar sobre o nosso comportamento como pai, marido e amigo.
Pena que não dá para engatar uma marcha à ré e procurar corrigi-las. E fico apenas no consolo da frase de Cristo: "Pai, perdoa-os porque não sabem o que fazem".
Naturalmente, eu não sabia o que era importante para cada um deles. O importante era o meu trabalho, ao qual me dediquei de corpo e alma, com a cega missão de garantir o futuro da família.
Parabéns e abraços.
Secco
Marinho,
ResponderExcluirbelíssimo depoimento, me orgulha muito o contato que mantemos e que espero poder continuar no clube ou fora dele.
Abraços,
Ricardo L. Abud
Que comovente, Marinho, essa dos dez anos da morte do seu pai (e a não menos comovente doença de sua mãe). Escrevi recentemente uma matéria sobre a Doença de Alzheimer, que se V. quiser lhe mando, só pra V. ver que as coisas não acontecem só com V. ... mas não precisa pedir, porque eu sei que é uma ferida dolorosa, que a gente tenta fazer de conta que não está sentindo!
ResponderExcluirAdorei tb a matéria sb o Wando, que repassei pra família inteira! V. anda muito sensível ultimamente., né? Aliás, acho que sempre foi e escondia atrás das atividades esportivas... Abs, Lucita
Mário Marinho,
ResponderExcluirCompreendo e sinto na alma, muito bem, o seu “ E lá se foram 10 anos”...
Minha solidariedade, meu amigo,
Forte abraço,
Píndaro
Tio, linda mensagem!! Você conseguiu retratar em poucas palavras a história da nossa família. O vovô vai fazer falta sempre!! E fico feliz pelo reconhecimento da dedicação da mamãe com a vovó!! Disse tudo!! bjos, Polly.
ResponderExcluirQue texto lindo, Marinho!, cheio de doces sentimentos...
ResponderExcluirE Verênia tem razão: o avô certamente está presente nos almoços, apesar da ausência, como diz Drummond.
"...aqui presentes avós há muito falecidos. Mas falecem deveras os avós? Alguém deste clã é bobo de morrer? A conversa o restaura e faz eterno." abraço carinhoso, Heloisa.
Ah!, e você é a cara da sua mãe!
ResponderExcluirMario, cheguei hoje cedo ao trabalho (antes da 5:45am) e li o conto sobre seu pai, gostei. Lembrei do meu, esta semana faz três anos que o nosso Bill Duncan partiu, mas ontem mesmo tive um sonho com ele, tão real, que senti fortemente a sua presença que, acredito, me acompanha dia-a-dia.
ResponderExcluirEstou morando com a minha família na África, precisamente em Luanda, Angola. Estamos felizes, sentimos falta do Brasil, com certeza, da família e dos amigos, mas tem sido momentos especiais que ficarão na lembrança, enquanto eterna, dos nossos filhos.
Uma boa semana!
José Vicente.
Xará
ResponderExcluirMuito bonita a sua crônica sobre seus pais.
Os meus,
também viveram um lindo romance até que meu pai, também Mário como nós, se foi, deixando sua doce e eterna namorada.
Foi a mais terrível de suas perdas. Maior ainda do que a infinita tristeza de perder um filho. Pois ela – eles – haviam perdido dois alguns anos antes. Meus irmãos, mais novos do que eu, morreram num intervalo de dois anos.
Pois a dona Julinha resistiu bravamente, mostrando que poderia ser ainda mais forte do que já fora em toda a sua vida de mulher do seu tempo, que vivia para a família.
Hoje ela está com 93 anos e não é nem sobra do que foi. É uma velhinha curvada que se move com dificuldade. Só que o seu mal maior não é esse. É o terrível Alzheimer que destruiu seu cérebro e quase todas as suas lindas memórias.
E muito triste estar com ela: às vezes sou para ela um amigo, o marido ou até mesmo o irmão mais velho (afinal tenho mais cabelos brancos do que ela).
Continuo a visitá-la sempre e a ouvir as mesmas coisas repetidas à exaustão. Saio de lá arrasado, mas volto sempre. Não importa que ela não se lembre de mim. O que importa é que eu não a esqueço.
Quando será que a ciência, que descobre e aperfeiçoa tantas maravilhas, vai derrotar males como esse que nos rouba o que temos de mais precioso: as nossas lembranças. É como se um terrível tsunami invadisse a nossa casa e levasse todos os nossos retratos, todas as cartinhas guardadas por tantos anos, todas as nossas vidas gravadas em papel ou em velhos vinis.
Aquela senhorinha já não é a minha mãe, mas eu a amo muito.
Estou emocionado como sempre acontece quando tento escrever sobre esse tema. Mas, não poderia deixar de partilhar isso com você e, de certa forma, consolar o amigo.
Grande abraço
Xará LIma
Caro Xará,
Excluirrealmente só quemm vive uma situação assim sabe quanto ela é tiste, dolorida.
Logo no começo da doença de minha mãe, o médico nos alertou: esqueçam a dona Celina que Vocês conheceram até hoje; agora, Vocês conviverão com uma nova pessoa que não tem nada a ver com a mãe que Vocês conheceram e conviveram até hoje.
E é isso mesmo.
É outra pessoa.
Há poucos dias li que cientistas estão conseguindo avançar no tratamento do Alzheimer. Talvez nossos filhos e netos tenham melhor sorte.
É um ótima notícia.
Em compensação, li que cientistas conseguiram reproduzir em laboratório o canto de um grilo que existiu a 165 milhões de anos.
Pergunto: e daí?
Não deve ter sido uma pesquisa barata.
Será que não há coisa mais importante a ser pesquisda?
Abraços,
Xará.
Oi Marinho. Texto muito emocionante como sempre.
ResponderExcluirVocê, assim como eu, podemos dizer de boca cheia que sabemos na prática o que é uma FAMÍLIA. Um privilégio de Deus.
Ary Pereira Jr.
oi Mário, apesar de já ter lido o seu texto, "bem quentinho", emocionei-me mais na segunda leitura, que foi seguida dos comentário lindos e generosos.
ResponderExcluirParabéns pelo belo e feliz texto.
Bjos
Maria Helena
Mário Lúcio, só hj. li este belo texto sobre a morte de teu pai..e só tenho "inveja" de não saber exprimir como tu ,tudo !
ResponderExcluirBeijo.
Com esta foto k publicaste, és a cara da Mamã, não ?
MMarinho.
ResponderExcluirQuanto comentário! Não sobrou nada para falar dessa nossa companheira, que nos atura, que engole os sapos que soltamos,
que nos faz o café e nos alimenta todos os dias, que gera nossos
filhos, que ouve silente nossas broncas contra tds e o mundo. Modinha. Acabei de ouvir essa fantástica composição que fala em ofertar uma rosa à primeira namorada. A elas, nossas eternas namoradas, um grande buquê de rosas! MOURA