Eu tenho a mania de me apaixonar pelos bons livros que leio. E se o livro vai chegando ao final, começo a entrar em pânico pela perspectiva de ter que abandoná-lo. Então, passo a ler mais devagar, vou protelando o inevitável final.
Mais ou menos como nos poucos picolés da infância em que ia consumindo aos poucos, bem devagar, tentando prolongar aquele prazer.
Mas o livro do jornalista Carmo Chagas (“Ser Feliz de outro jeito”, editora Textual, carmoch@uol.colm.br ) me levou a um sentimento conflituoso, turbulento.
O livro é muito bom, é ótimo. Eu não queria que ele acabasse, mas ao mesmo tempo eu queria chegar ao fim da incrível luta de sua mulher Léa, da tremenda demonstração de força, de fé e do amor do belo casal.
Queria chegar ao fim para entender o título: “Ser feliz de outro jeito”.
Conheci Carmo Chagas em minha chegada a São Pulo, no longínquo ano de 1968. Ele foi o meu primeiro chefe na editoria de Esportes do recém-nascido Jornal da Tarde, com apenas dois anos de vida e de muito sucesso.
Aquele jeito bem mineiro, lá do interior (ele é da cidade de Inhapim), tranqüilo, de prosa saborosa é o que o leitor encontrará nesse livro. Quem conheceu ou conhece o Carmo não lerá o livro: ouvirá a sua voz, o seu sotaque e a prosa gostosa de ouvir.
Ele e a Léa se conheceram meio por acaso, faiscaram olhares e se apaixonaram.
O mineiro acanhado, ainda editor de Esportes do JT, convidou a já quase namorada para ir ao Pacaembu assistir Brasil e Uruguai no primeiro encontro! Ele já estava apaixonado. Ela não sabia mas também já estava: só uma paixão muito grande para justificar ir ao Pacaembu naquele domingo à tarde.
Parêntesis. O Carmo não conta no livro, mas o Brasil venceu o jogo naquela tarde de 7 de junho de 1968, por 2 a 0. Os gols foram do mineiro Tostão e do gaúcho Sadi. Eu estava lá. Fecho parêntesis.
O casamento veio rápido. Carmo saiu do JT foi para a revista Veja que seria lançada meses depois.
Tiveram duas filhas – Juliana e Carolina.
Tudo seguindo um rigoroso e saboroso roteiro traçado caprichosamente pela boa fada chamada Felicidade.
Até o dia que a boa fada cochila e uma tragédia se anuncia.
Léa é internada num hospital e começa a viver ali um calvário. Não apenas ela, mas o Carmo, as duas filhas, genros, netos – enfim, quem gostava da sorridente Léa.
Esse problema terrível deságua em um outro, em mais outro, mais outro e a força dela, a garra vai sendo testada a cada instante.
E a cada instante uma conquista, um obstáculo vencido, uma vitória. Sorrisos, lágrimas de alegria.
Você sabia que uma pessoa sem o pé não é capaz de ajeitar o corpo na cama? Não, eu não sabia. Falta-lhe o apoio do pé.
São semanas na UTI, meses no hospital.
Carmo se reveza no trabalho em casa, uma pequena chacrinha na Zona Oeste de São Paulo, com direito a horta, pomar, galinhas, pássaros, se reveza entre esse pequeno paraíso e a idas e vindas aos hospitais.
As filhas estão sempre presentes – os amigos também.
Depois, intermináveis terapias, treinamentos, experimentos com próteses, órteses, meias especiais, aparelhos, exercícios capazes de esgotar a qualquer mortal – menos a imortal Léa.
Carmo não escreveu um livro de auto-ajuda.
Mas ali estão as lições básicas, os pilares para a felicidade: o amor, a união da família, palavras de estímulo, a presença dos amigos.
A soma é a felicidade, mesmo que seja de outro jeito.
É a prova de que não se pode entregar nunca. Nunca pense que seu sofrimento é o maior de todos.

Fico comovido, Mário Lúcio!
ResponderExcluirDaqui a pouco, quando a Léa acordar, vou mosstrar para ela.
Eu não lembrava do placar daquele Brasil x Uruguai. Na verdade, assim como ao filme "A religiosa", não assisti ao jogo, embora estivesse lá. Minha atenção era só para ela.
Grande abraço,
Carmo
Mário,
ResponderExcluirO livro é ótimo. O seu texto é fantástico.
São pessoas como a Léa, o Carmo e você que fazem este universo de homens e ideais.
Abraço do Vital Battaglia
Battaglia,
Excluirfiquei emocionado.
Muito obrigado!
Mário Marinho
este é o meu PAI, o qual eu tenho muito orgulho dos belos textos e palavras de conforto ... sempre.
ResponderExcluirSó espero que ele acabe logo o livro pois não aguento mais de tanta vontade de ler!
Pode passar aqui em casa: já acabei de ler.
ExcluirVou emprestá-lo a Você, mas com dois vês: Vai e Volta.
Te amo!
Beijos.
Caro Mario Marinho,
ResponderExcluirTudo bem? Gostei da indicação do livro
do Carmo, quem, por sinal tive o prazer de conhecer
no velho e querido JT. Com certeza o lerei, pois deve
dar uma lição de vida, coragem e amor.
Valeu meu velho.
Abraço, Cesar
Mário
ResponderExcluirVocê e Vera falaram tanto nesse livro que eu quero ler , mas não vou esperar por essa imensa fila para ler o seu . Veja pra mim onde posso comprá-lo..
Adorei o seu comentário, pessoas sensíveis fazem a diferença.
Caso vc consiga comprar um ai, manda dizer qto é. Já procurei aqui na Saraiva , mas não tem.
Aguardo noticias . Bjos !
Marina Marinho